Archive for March, 2009

Taste of blood

Still this silence gnaws upon your fingertips,
 All-yielding prayer, for instant isolation,
 Far more sinister than the price of doubt
  

 Tinha algo tão excitante ao vê-la exaltada, com a jugular à mostra, que ele não conseguiu segurar a sua vontade e, num ato impercepível a meros mortais, saciou sua sede em questão de segundos. Ninguém entendeu o arroubo de gentileza em meio àquela discussão acalourada. E saber de onde surgira a dúvida instantânea da interlocutora do vampiro em continuar a debater o assunto. E saber que ele apreciara o seu gosto. E saber que aquela noite não seria uma noite solitária…

 

Audio off

On me dit que nos vies ne valent pas grand chose,
Elles passent en un instant comme fanent les roses.
On me dit que le temps qui glisse est un salaud
Que de nos chagrins il s’en fait des manteaux

E quem se importa com o que se ouve? Chega a ser engraçado como o que vemos, cheiramos, pegamos, sentimos o gosto não nos atinge da forma viceral como o que ouvimos. O que vemos são atos dos outros, nossos, mas são atos. Foram feitos. Foram sabidos. Por outro lado, ninguém vê pensamentos. Por isso mesmo, a visão é limitada no aspecto de nos causar dor. O cheiro, o tato, o gosto. Tudo isso diz respeito a percepções. Mas ouvir… Ouvir é cruel. Ouvir é ser Deus. É mais que saber: é acreditar.

Dizer menos é ser mais egoísta. Ouvir mais, sofrer mais…

PS: Porque eu sei que nem todos são obrigados a saber francês, segue a tradução do excerto de Quelqu’un M’a Dit,

Disseram-me que as nossas vidas não valem grande coisa,
Elas passam em instantes como murcham as rosas.
Disseram-me que o tempo que desliza é um bastardo
Que das nossas tristezas ele faz suas cobertas

Enquanto

It’s a beautiful day
The sky falls and you feel like it’s a beautiful day
Don’t let it get away

Sim, sim, sim. Depois de uma longa tempestade, o vento retrai as nuvens que, envergonhadas de tanta lambança, fogem com os dedos sujos do manjar que tinham devorado. O sol brilha num céu piscina, e mergulha em suas águas rajadas. Desdobra-se num infinito de sete cores e vem à tona como um geiser, com toda a sua força implícita, sem, contudo, derrubar uma gota sequer. Longe disso, esparrama-se em torno de si mesmo, indo e voltando vezes e vezes. E inebria-se com toda a felicidade de nadar sozinho e sob a sombra de uma palmeira enquanto recita versos do Caymmi.

Não queria saber se a tempestade estava apenas tirando uma folga. O vento forte cedeu a uma brisa imperceptível e isso era tudo o que importava. Porque, felizmente, não sabia quanto tempo duraria essa calmaria. Nem mesmo se estaria aqui quando viesse uma nova tempestade. Porque, por mais otimista que fosse, ele sabia que a tempestade sempre volta.

Altiva

Roxanne, you don’t have to wear that dress tonight

Tinha acabado de fazer o que estava com vontade há dias. E quem teria coragem de dizer-lhe para não fazer? Porque até mesmo pessoas das mais próximas e queridas possuiam o bom senso necessário para não apontar-lhe o caminho a seguir. Mesmo porque tinham consciência de que seguiria a trilha que melhor lhe aprouvesse.

E saber das consequências dos seus atos. E saber que não teria que vestir aquele vestido naquela noite…

Nobre vagabundo

Sou perecível ao tempo
Vivo por um segundo

Ele tinha um dom especial. Não sabia bem qual a razão ou mesmo o significado daquilo. Mas era clara a possibilidade de realizar determinadas coisas não realizáveis a meros mortais.

E dai? O que ele fazia com esse dom? A resposta vem como uma nova pergunta: era necessário fazer algo? A mera ciência desse dom bastava a ele. Mas dons não devem ser usados para o bem da sociedade? Devem mesmo?

Na dúvida ele preferia se imiscuir na sociedade, trazendo no seu íntimo a satisfação de ser o que era. E para ser, prescindia o reconhecimento dos demais sobre si. Porque ele sempre acreditou que era pelo que se compunha, e não pelo que os outros achavam.

Só não sabia porque o taxavam de louco.