Archive for November, 2008

Not guilty

Instead of stressed, I lie here charmed
Cuz there’s nothing else to do,
Every me and every you.

Ele não tinha culpa. Muitas coisas acontecem sem que haja um culpado e ele se apegava a tal argumento com todas as forças que lhe restavam. Ele não tinha culpa de não sentir. Tudo parecia-lhe muito excessivo. Pouco tempo e a certeza de que não era tudo aquilo. Ninguém poderia sentir tudo aquilo tão rápido. E sofrer por isso? Ele, definitivamente não tinha culpa, nem tempo, nem paciência. Choro e ranger de dentes ficam muito bem para divãs. Como no máximo pensara em ter uma chaise long… O fato é que mais uma vez se deparara com algo que todos dizem existir. Mas como poderia existir apenas para um? O conceito é bonito: assim imutável, assim intangível… Mas pragmático como era, buscar duendes em cachoeiras apenas faz olharmos para o lado errado e perdermos a paisagem

Esnobe-a…

Será que é de louça
Será que é de éter
Será que é loucura
Será que é cenário

Escorreita forma de se portar. Uma postura invejada à própria Vênus sem braços. Vênus sem a possiblidade de ser desenvolta em mesuras, sem a sutileza do menear de mãos, do gestual formal de recepções. Ofendera-se Milo diante de sua inércia? Oh, Vênus desnuda! Em quantos momentos se portara digna da deusa que representa? Deusa fria, distante. Sim, corre ao encontro do coxo. Mas não ouse demonstrar suas veias. Faça poses e ignore todo o resto.

Águas

Gire a torneira,
Perigas ver
Inunda o mundo,
o barco é você

Que me lave a alma, que me purifique dos pecados. Eu nunca mais olhei o meu rosto no espelho. Nunca mais vi o que têm feito comigo. Vivo sob a tormentosa e aquífera solidão, banhando-me em infindáveis mergulhos numa ótica impressionista. E minhas cores diluem, ao mesmo tempo em que se tornam mais minhas. Não deixam rastros. Quebram o silêncio e rastejam até minha cama. Fazem de minha solidão papel e no papel uma pintura. Uma pintura aguada.

Calmaria

Chove. Chove no cerrado, uma chuva que nunca vira. Assim forte, assim tempestuosa. Chove há três dias, noves fora, 28. Num dia dez, nada que não possa ser novembreado. Um bom dia para nascer. Clima ameno, fim de tarde. Como tudo o resto, haveria também de ser tranquilo. Como toda a vida, pacata, sem grandes anseios, tudo ao seu tempo. Emoções substantivas no seio familiar e nos laços fortes de amizades. Amigos longe. Um irmão sendo redescoberto. Acho que, apesar de tudo, o único porém é não ter do que reclamar. Isso pode ser, sim, um problema. Afinal, nenhuma calmaria dura para sempre…

Pactuado

Eu queria querer-te e amar o amor, construírmos dulcíssima prisão
E encontrar a mais justa adequação, tudo métrica e rima e nunca dor
Mas a vida é real e de viés, e vê só que cilada o amor me armou
Eu te quero e não queres como sou, não te quero e não queres como és

A vida é real? Então vivo escondido no escuro, imerso num sol, fundo, no fundo de você e de mim, debaixo do lençol… êta, êta, êta. Porque de tudo o que vejo, nada, mas nada mesmo tange a realidade. Se é que algo, de fato, pode ser concebido como realidade. Cheia, branca, inteira, de São Jorge? Tão bonito quanto a cara do teu filho… Entro num acordo contigo. Que a realidade não me inflija prejuízos e que eu não diga a todos que ela não existe. Apenas o tempo; tempo, tempo, tempo, tempo…

Masoquismo

Oh, pedaço de mim
Oh, metade afastada de mim

 

Eu acho que há porção de mim que não gosta muito do meu jeito. Porção esta sem qualquer bom gosto… Eu diria até, sem bom senso. Imagine que lê poesias, assiste à Luciana Gimenez, vê novelas bizarras, ouve músicas de Fagner, pagode; não gosta de cinema, se diverte com inutilidades, se deprime, se entedia, é mal educada, tem uma tendência malígna de apreciar desventuras alheias, não reza, trabalha, não dá satisfação, é consumista, é carente, roga pragas, come em demasia, aprecia doritos e coca-cola.

Convenhamos… É até bom que ela não goste de mim, certo?

Except the freaks

 Who suspect they
could never love anyone,
Except the freaks

O riso pode revelar um sentimento estranho… Pior; pode revelar o sujeito de toda a estranheza. Porque ele é estranho. Um estranho disfarçado, contido, muitas vezes subestimado, mas ainda sim perigoso. Ele inunda vales com meros acessos de tosse. Sopra velas para longe de seu porto. Ruge cântigos como outrora fizera um povo esquecido e submerge em sua própria soberba. Limita-se a esquecer que é estranho, para que, assim, possa não sê-lo. Alguém amará os estranhos, desnudo de tudo que traz em si? Ou amarão o estranho apenas enquanto o baile não terminar?