Archive for May, 2008

De um lugar muito, muito distante

Foi assim que me senti ontem ao entrar numa loja de cd’s (elas ainda existem?) e sair de lá com dois…

Menino!

Um dos motivos de eu adorar Fernando Sabino… Como não se identificar?

 

Menino venha pra dentro, olhe o sereno! Vá lavar essa mão. Já escovou os dentes? Tome a bênção a seu pai. Já pra cama!

Onde é que aprendeu isso, menino? Coisa mais feia. Tome modos. Hoje você fica sem sobremesa. Onde é que você estava? Agora chega, menino, tenha santa paciência.

De quem você gosta mais, do papai ou da mamãe? Isso, assim que eu gosto: menino educado, obediente. Está vendo? É só a gente falar. Desça daí, menino! Me prega cada susto… Pare com isso! Jogue isso fora. Uma boa surra dava jeito nisso. Que é que você andou arranjando? Quem lhe ensinou esses modos? Passe pra dentro. Isso não é gente para ficar andando com você.

Avise a seu pai que o jantar está na mesa. Você prometeu, tem de cumprir. Que é que você vai ser quando crescer? Não, chega: você já repetiu duas vezes. Por que você está quieto aí? Alguma você está tramando… Não ande descalço, já disse! Vá calçar o sapato. Já tomou o remédio? Tem de comer tudo: você acaba virando um palito. Quantas vezes já lhe disse para não mexer aqui? Esse barulho, menino! Seu pai está dormindo. Pare com essa correria dentro de casa, vá brincar lá fora. Você vai acabar caindo daí. Peça licença a seu pai primeiro. Isso é maneira de responder a sua irmã? Se não fizer, fica de castigo. Segure o garfo direito. Ponha a camisa pra dentro da calça. Fica perguntando, tudo você quer saber! Isso é conversa de gente grande. Depois eu dou. Depois eu deixo. Depois eu levo. Depois eu conto.

Agora deixa seu pai descansar – ele está cansado, trabalhou o dia todo. Você precisa ser muito bonzinho com ele, meu filho. Ele gosta tanto de você. Tudo que ele faz é para o seu bem. Olhe aí, vestiu essa roupa agorinha mesmo, já está toda suja. Fez seus deveres? Você vai chegar atrasado. Chora não, filhinho, mamãe está aqui com você. Nosso Senhor não vai deixar doer mais.

Quando você for grande, você também vai poder. Já disse que não, e não, e não! Ah, é assim? Pois você vai ver só quando seu pai chegar. Não fale de boca cheia. Junte a comida no meio do prato. Por causa disso é preciso gritar? Seja homem. Você ainda é muito pequeno para saber essas coisas. Mamãe tem muito orgulho de você. Cale essa boca! Você precisa cortar esse cabelo.

Sorvete não pode, você está resfriado. Não sei como você tem coragem de fazer assim com sua mãe. Se você comer agora, depois não janta. Assim você se machuca. Deixa de fita. Um menino desse tamanho, que é que os outros hão de dizer? Você queria que fizessem o mesmo com você? Continua assim que eu lhe dou umas palmadas. Pensa que a gente tem dinheiro para jogar fora? Tome juízo, menino.

Ganhou agora mesmo e já acabou de quebrar. Que é que você vai querer no dia de seus anos? Agora não, que eu tenho o que fazer. Não fique triste não, depois mamãe dá outro. Você teve saudades de mim? Vou contar só mais uma, que está na hora de dormir. Agora dorme, filhinho. Dê um beijo aqui – Papai do Céu lhe abençoe. Este menino, meu Deus…

PS: Leia-se como uma homenagem do dia das mães atrasado.

Sobre pesadelos.

 

Passei o final de semana assistindo a filmes de suspense, num total de cinco. Saí de casa tão-somente para locá-los, e, no sábado à tarde, para tomar uma com meu irmão, num barzinho daqui. O domingo foi todo confinado. Resultado: De ontem para hoje, eu passei a noite toda tendo pesadelos. Há muito tempo eu não os tenho… E hoje vieram de uma só vez. Um total de cinco. Não me lembro deles, mas me lembro de ter acordado cinco vezes. E ficava todo encolhido na cama, num edredon delicioso que eu comprei… Ficava ainda tentando reviver o medo do sonho, mas não era o mesmo medo… perdia um pouco a solidez… É uma pena. Eu gosto de sentir medo. Dá aquela sensação de se estar vivo. Mas comigo ele é sempre muito efêmero. Tenho ainda mais dois filmes para assistir. Espero ter alguns pesadelos hoje

Tambores

“Nessa Cidade Todo Mundo É d’oxum
Homem, Menino, Menina, Mulher
Toda Essa Gente Irradia Magia
Presente Na Água Doce
Presente n’água Salgada
E Toda Cidade Brilha
Seja Tenente Ou Filho De Pescador
Ou Importante Desembargador
Se Der Presente É Tudo Uma Coisa Só
A Força Que Mora n’água
Não Faz Distinção De Cor
E Toda A Cidade É d’oxum
É d’oxum, É d’oxum, É d’oxum,
Eu Vou Navegar, Eu Vou Navegar
Nas Ondas Do Mar, Eu Vou Navegar
É d’oxum, É d’oxum “

Composição: Gerônimo / Vevé Calazans

Pense numa pessoa inspirada para fazer isso aí em cima… Eu não sei de quem sou, mas sou d’oxum também…

Don’t worry… be happy

 

Eu sou tranquilo. E só fico angustiado exatamente quando não sei o motivo da angústia. Como se alguma coisa de ruim estivesse para acontecer e não fosse me dada a chance de evitar. E nesse contexto, me solidarizo com Cassandra. E nesse contexto deixo de ser tranquilo. Mas de resto, é um sentimento passageiro. Não demora mais que alguns momentos. É quando eu me acredito bi-polar. E se o for, sou do tipo brando. Não sei quais os tipos existentes, mas pensar que, existindo alguma doença, seja ela do tipo branda, acalma a gente. Do tipo, dos males o menor… Mais uma demonstração do meu espírito tranquilo. Otimista, alguém poderia dizer. Sim, sou otimista também. Na verdade, não fico pensando que o melhor vai acontecer. É que o pensamento sobre o pior sequer cruza a minha mente.

Uma amiga minha diz que no final tudo sempre dá certo. Seria ela otimista? Porque eu acredito que para dar certo, nem precisa chegar no final. É que “no final” dá a impressão de demorar muito. E se pensarmos no final de um filme ou um jogo de futebol. Seria um pensamento “otimista” de final. Ou de um final otimista. Enfim, eu ainda acredito em finais felizes.

That´s All, after all

 

“but some sit in silence, they’re just older children that’s all, after all”

 

Porque somos apenas pequenos diante de tudo. E como somos afortunados por sermos pequenos. A ignorância é uma bênção. Não acreditarmos no que nos é apresentado demonstra a tendência natural do ser humano: a negação. E negar, qual uma pequena criança velha, não nos faz infantis, ou tolos, inocentes, ridículos… Antes disso, nos faz humanos. E como humanos, somos também, infantis, tolos, inocentes e ridículos. E, acreditem: essa é a parte boa.