Ele tinha um terceiro mamilo.Era quase uma manchinha, logo abaixo do mamilo direito. Na verdade, sempre pensou que fosse apenas “uma manchinha, logo abaixo do mamilo direito”. Numa consulta, já adulto, com um médico, para curar uma amigdalite, ouviu o comentário sobre haver um “terceiro mamilo” em si. Achou aquilo tão estranho… Como se pudesse ser um elo perdido na evolução. Esse ser estranho alojado em seu abdômen, que antes só era uma manchinha, passou a refletir um quê de inferioridade inata. Era ele menos evoluído que os demais a sua volta. Não mais tirava a camisa em público. Apesar de,em 29 anos, ninguém ter sequer comentado, tinha certeza de que todos sabiam. E riam dele quando o mesmo não estava próximo. Durante churrascos, percebia olhares em direção à sua barriga. Sabia que não era pelo tamanho, afinal, dias e dias de malhação lhe proporcionara um abdômen invejável… Não… Tinha certeza que olhavam e comentavam sobre a marca de seu infortúnio. Praguejara contra sua mãe e pai… Eles não tinha um terceiro mamilo. Por que ele, logo ele, saiu com a marca de sua desgraça. Irmãos? Nenhum possuia a distinta marca. Pensou em seu intelecto como inferior. Seu organismo como inadaptado. Tinha todos os dentes cisos. Tinha apêndice. Pêlos? Muitos… Tudo o que pessoas inferiores evolutivamente possuiam.
Finalmente foi a um cirgurgião a fim de expurgar de seu ser aquela aberração. Contou tudo minunciosamente ao cirurgião, que marcou a data da operação. Antes, porém, o médico solicitou uma entrevista com um psicólogo, por razões burocráticas da clínica. Ele não queria se consultar com o psicólogo. Não queria informar a ninguém da sua condição. Sabendo que esta seria a única forma de ser operado, concordou.
Entrando na sala, sons de trombeta tocaram. Via pessoas jogando verduras podres e ovos em sua direção. O capataz a sua frente desviou alguns dos espectadores e ele pôde ver a forca, com o nó característico esperando-o, balançando de um lado para o outro, levado pelo suave vento que trazia um cheiro de fumo.
O psicólogo estava sentado numa poltrona, ao lado de outra. Perguntou sobre o divã e recebeu como resposta um riso de canto de boca do psicólogo. Começou timidamente a falar que tinha um defeito, uma pequena falha em seu abdômen que o incomodava e tinha ido até a clínica para retirá-lo. O psicólogo fez A pergunta. Ora o que era… Ora ora… Era um defeito. Um defeito no abdômen. Não! Não podia mostrar!!! Era pessoal! Sabia que aquela conversa também era pessoal, mas não iria mostrar e pronto! Começou a se sentir acuado… O capataz subia a escada que dava para o palanque armado para o espetáculo.
Não… Não queria ver o abdômen do psicólogo. Que idéia!!! Queria sim, que ele preenchesse a ficha para liberar a operação. O psicólogo cedeu. Comentava, enquanto preenchia o formulário, que várias pessoas iam até a clínica para corrigir defeitos, meio que tentando ser simpático. Não o era. Só seria simpático quando terminasse de preencher o maldito formulário. Continuou com uma conversa mole e… Disse a palavra!!! Indignado, ele levantou de um salto. Acusou o médico de ter quebrado o sigilo médico… Uma falta de ética. médica. Estava já com a cabeça na forca. Não havia mais escapatória. O fuzuê criado era para desviar a atenção do psicólogo. Como um animal que começa a ladrar para espantar um ser humano. Seu lado pré-evolutivo dominava o racional, mas era a única forma de não ser humilhado. Gritava e gritava… Foi quando viu o sinal característico na barriga potuberante do psicólogo… Parou de imediato. A imagem que lhe veio a mente foi a de uma convenção de homens das cavernas, riscando paredes e gritando… O psicólogo começou a dizer que muitas pessoas tinha um terceiro mamilo… Que era uma coisa normal… Que… Não queria saber!!!! Podiam ser milhares!!! ELE era um deles. Ele era um ser pre-histórico. Dali a pouco começaria a pular e a arrastar mulheres pelos cabelos, como forma de sedução e a… Einsten o que? Como é que é? Sentou e terminou de ouvir. Viu, incrédulo, no notebook do psicólogo até fotos do gênio, exibindo o seu terceiro mamilo. Teve vontade súbita de rasgar um pedaço de sua camisa e sair mostrando para as outras pessoas. Ele e Einsten…. Ele e Einsten… Einstinho…
Imprimiu em casa as fotos enviadas pelo psicólogo. Tratou de marcar um churrasco e só faltou circular seu terceiro mamilo com uma tinta fluorescente. Colocou a imagem de Einsten num porta-retratos e deixou num aparador pelo qual todos os convidados iriam ter de passar. Tirou a camisa, e ficou exibindo durante todo o churrasco o seu terceiro mamilo com orgulho. Orgulho de pertencer à mesma estirpe de Einsten… E viu, ao final do churrasco, que ninguém tinha comentado… Pessoas incultas e inferiores, que não possuem um terceiro mamilo… O que esperar de pessoas assim???