Archive for July, 2006

Suíte Havana

 

suite-habana-poster01.jpg

Barulho. Sons urbanos numa cidade qualquer. Pessoas passando de um lado para o outro. Somos, então, apresentados paulatinamente a cada personagem, que poderia perfeitamente ser mais um dos coadjuvantes. Todos são coadjuvantes. Tudo é coadjuvante. A verdadeira personagem é a música, composta por sons de britadeiras, motocicletas, fábricas, pássaros, panelas de pressão, alho sendo amassado, e, claro, da vida de cada um dos moradores dessa cidade. Uma música melancólica… Por poucas vezes alegre. Uma música encantadora. A simbologia encantadora no desfecho… E ficamos a observar, absortos, tamanho engano em nós infundido pela sociedade em que vivemos… “o meu coração me diz…fundamental é ser feliz…”

 

Aconchegante

Clima agradável na noite soteropolitana, num lugar em que o nome indica sua especialidade: O Aconhego da Zuzú é, de fato, extremamente aconchegante… Do atendimento ao sabor da comida, da boa música nas noites de sexta-feira à companhia… Fui fisgado. Tudo funciona de forma a criar uma atmosfera própria… E o que é aquela cantora? E o que são aquelas pessoas “chorando”? Um insulto a quem um dia pensou em aprender violão… Imperdível e impossível de não se repetir.

Mirror

espelho.jpg

E quando começamos a perceber que tudo aquilo esperado nos outros, por nós, é um mero reflexo pálido do que temos dentro de nós mesmos? E quando notamos que nunca nossas expectativas são atingidas? Seríamos nós exigentes? Intransigentes com o diferente? Comprometeríamos em ser apenas o que somos, sem mudar? Gostamos tanto assim de nós mesmos? Merecemos tudo o que buscamos nos outros? Será que esquecemos de tudo de ruim que temos em nós? Admitiríamos isso nos outros? Gostaríamos disso também? Queremos isso até encontrarmos…É quando percebemos que um espelho não é uma boa companhia…

A foto que ilustra o texto é de um espelho clássico francês, em cristal 4mm bisotado, ricamente trabalhado com folha de ouro envelhecida, e custa a bagatela de R$ 2.690.00, no site http://www.decorecomarte.com.br.

O terceiro mamilo

Ele tinha um terceiro mamilo.Era quase uma manchinha, logo abaixo do mamilo direito. Na verdade, sempre pensou que fosse apenas “uma manchinha, logo abaixo do mamilo direito”. Numa consulta, já adulto, com um médico, para curar uma amigdalite, ouviu o comentário sobre haver um “terceiro mamilo” em si. Achou aquilo tão estranho… Como se pudesse ser um elo perdido na evolução. Esse ser estranho alojado em seu abdômen, que antes só era uma manchinha, passou a refletir um quê de inferioridade inata. Era ele menos evoluído que os demais a sua volta. Não mais tirava a camisa em público. Apesar de,em 29 anos, ninguém ter sequer comentado, tinha certeza de que todos sabiam. E riam dele quando o mesmo não estava próximo. Durante churrascos, percebia olhares em direção à sua barriga. Sabia que não era pelo tamanho, afinal, dias e dias de malhação lhe proporcionara um abdômen invejável… Não… Tinha certeza que olhavam e comentavam sobre a marca de seu infortúnio. Praguejara contra sua mãe e pai… Eles não tinha um terceiro mamilo. Por que ele, logo ele, saiu com a marca de sua desgraça. Irmãos? Nenhum possuia a distinta marca. Pensou em seu intelecto como inferior. Seu organismo como inadaptado. Tinha todos os dentes cisos. Tinha apêndice. Pêlos? Muitos… Tudo o que pessoas inferiores evolutivamente possuiam.

Finalmente foi a um cirgurgião a fim de expurgar de seu ser aquela aberração. Contou tudo minunciosamente ao cirurgião, que marcou a data da operação. Antes, porém, o médico solicitou uma entrevista com um psicólogo, por razões burocráticas da clínica. Ele não queria se consultar com o psicólogo. Não queria informar a ninguém da sua condição. Sabendo que esta seria a única forma de ser operado, concordou.

Entrando na sala, sons de trombeta tocaram. Via pessoas jogando verduras podres e ovos em sua direção. O capataz a sua frente desviou alguns dos espectadores e ele pôde ver a forca, com o nó característico esperando-o, balançando de um lado para o outro, levado pelo suave vento que trazia um cheiro de fumo.

O psicólogo estava sentado numa poltrona, ao lado de outra. Perguntou sobre o divã e recebeu como resposta um riso de canto de boca do psicólogo. Começou timidamente a falar que tinha um defeito, uma pequena falha em seu abdômen que o incomodava e tinha ido até a clínica para retirá-lo. O psicólogo fez A pergunta. Ora o que era… Ora ora… Era um defeito. Um defeito no abdômen. Não! Não podia mostrar!!! Era pessoal! Sabia que aquela conversa também era pessoal, mas não iria mostrar e pronto! Começou a se sentir acuado… O capataz subia a escada que dava para o palanque armado para o espetáculo.

Não… Não queria ver o abdômen do psicólogo. Que idéia!!! Queria sim, que ele preenchesse a ficha para liberar a operação. O psicólogo cedeu. Comentava, enquanto preenchia o formulário, que várias pessoas iam até a clínica para corrigir defeitos, meio que tentando ser simpático. Não o era. Só seria simpático quando terminasse de preencher o maldito formulário. Continuou com uma conversa mole e… Disse a palavra!!! Indignado, ele levantou de um salto. Acusou o médico de ter quebrado o sigilo médico… Uma falta de ética. médica. Estava já com a cabeça na forca. Não havia mais escapatória. O fuzuê criado era para desviar a atenção do psicólogo. Como um animal que começa a ladrar para espantar um ser humano. Seu lado pré-evolutivo dominava o racional, mas era a única forma de não ser humilhado. Gritava e gritava… Foi quando viu o sinal característico na barriga potuberante do psicólogo… Parou de imediato. A imagem que lhe veio a mente foi a de uma convenção de homens das cavernas, riscando paredes e gritando… O psicólogo começou a dizer que muitas pessoas tinha um terceiro mamilo… Que era uma coisa normal… Que… Não queria saber!!!! Podiam ser milhares!!! ELE era um deles. Ele era um ser pre-histórico. Dali a pouco começaria a pular e a arrastar mulheres pelos cabelos, como forma de sedução e a… Einsten o que? Como é que é? Sentou e terminou de ouvir. Viu, incrédulo, no notebook do psicólogo até fotos do gênio, exibindo o seu terceiro mamilo. Teve vontade súbita de rasgar um pedaço de sua camisa e sair mostrando para as outras pessoas. Ele e Einsten…. Ele e Einsten… Einstinho…

Imprimiu em casa as fotos enviadas pelo psicólogo. Tratou de marcar um churrasco e só faltou circular seu terceiro mamilo com uma tinta fluorescente. Colocou a imagem de Einsten num porta-retratos e deixou num aparador pelo qual todos os convidados iriam ter de passar. Tirou a camisa, e ficou exibindo durante todo o churrasco o seu terceiro mamilo com orgulho. Orgulho de pertencer à mesma estirpe de Einsten… E viu, ao final do churrasco, que ninguém tinha comentado… Pessoas incultas e inferiores, que não possuem um terceiro mamilo… O que esperar de pessoas assim???

Ainda Sobre o Tempo

O nome do DVD é Tempo Tempo Tempo Tempo. A música é Oração ao Tempo. A intérprete é a dadivosa Maria Bethânia. O autor é o irmão. E saber que ainda tem gente que não gosta de Caetano Veloso…

Oração ao Tempo

(Caetano Veloso)

És um senhor tão bonito quanto a cara do meu filho

Tempo Tempo Tempo Tempo, vou te fazer um pedido

Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos, tambor de todos os ritmos

Tempo Tempo Tempo Tempo entro num acordo contigo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo e pareceres contínuo

Tempo Tempo Tempo Tempo és um dos deuses mais lindos

Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo no som do meu estribilho

Tempo Tempo Tempo Tempo ouve bem o que te digo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo e o movimento preciso

Tempo Tempo Tempo Tempo quando o tempo for propício

Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito ganhe um brilho definido

Tempo Tempo Tempo Tempo e eu espalhe benefícios

Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso fica guardado em sigilo

Tempo Tempo Tempo Tempo apenas contigo e migo

Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído para fora do círculo

Tempo Tempo Tempo Tempo não serei nem terás sido

Tempo Tempo Tempo Tempo

Ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos

Tempo Tempo Tempo Tempo num outro nível de vínculo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Portanto peço-te aquilo e te ofereço elogios

Tempo Tempo Tempo Tempo nas rimas do meu estilo

Tempo Tempo Tempo Tempo

Qual o seu tempo?

Amargurava um pretérito imperfeito?
Amaria num futuro subjuntivo?
Ficou para trás e não machuca mais?
Traiamos, traístes, trairás?
Cicatrizando o gerúndio…
E tardes e mais tardes… Tarde demais…
Passado que foi.
Particípio embrulhado em fita de cetim.
Qual presente com sorrisos.
Maravilhado entre iguais
Ao longe, guardado deserto.
Imperativamente… Jamais!
Oxalá em “que dê certo”.
Que recomeço infinitivamente…

Simplesmente Amélíe

Sem dúvidas, quem me conhece sabe que esse filme é o meu filme. E o é, além de todos os méritos técnicos, por uma só razão: a simplicidade. A felicidade retratada de forma tão corriqueira, exatamente como se apresenta. Os pequenos prazeres sobrelevados de tal forma que não há como não se identificar… E, Amélíe… Psicoticamente perfeita, na sua contida, e nem por isso menos interessante, vida. Uma obra prima, que eleva a alma, muito mais do que mereceriam muitos de seus espectadores. E Lady Di?

le_fabuleux_destin_d_amelie_poulain.jpg

  • Título Original: Le Fabuleux Destín d’Amélíe Poulaín
  • Título em Português: O Fabuloso destino de Amélie Poulaín
  • Diretor: Jean-Pierre Jeunet
  • Elenco: Audrey Tautou, Mathieu Kassovitz, Rufus, Lorella Cravotta, Serge Merlin, Jamél Debbouze, Claire Maurier, Clotilde Mollet, Isabelle Nantey, Dominique Pinon

amelie.jpg

toc toc toc

Engraçado como as coisas acontecem em nossas vidas, sem uma notificação, sem um aviso qualquer… E começamos a entender que sempre estaremos despreparados para o que a vida nos reserva, por mais que esforcemo-nos em controlar os eventos ao redor de nós mesmos. A imprevisibilidade nos faz reféns. A surpresa nos condiciona à verdadeira essência da natureza humana. O repente desenvolve em cada um o que há de mais belo no homem: sua criatividade em viver e conviver com as adversidades.

Para uns, as adversidades se mostram estimulantes, sem as quais a vida seria um marasmo… Para outros, deprimentes, por afrontarem o pseudo princípio do “controle sobre sua vida”, tão estimulado na nossa sociedade de consumo.

E assim estou eu, em fase de novidades, e frise-se, não de adversidades, que chegaram sem campainha.

Com anestesia

Minha boca exala gosto de creolina e gesso. Saio do dentista com a sensação de que o filadaputa ocasionou um derrame facial em mim. Metade do meu rosto não se move. A sensação de que meus lábios superiores pendem inertes sobre meus lábios inferiores faz com que fique olhando para todos os espelhos que encontro pela rua, só pra ter certeza de que eles não estão pendentes. E eles não estam… Aquele som do motorzinho fica na minha mente por pelo menos umas duas horas após ter saído da sala… Quase como um pagode infame que ouvi no taxi de ida… Entrei na sala do dentista e, se não calo minha boca, iria começar a cantar… Pega ordinária, desce ordinária…. Fazer o que quando não resta domínio da minha consciência sobre esse lado obscuro de meu ser, que  insiste em gravar letras de músicas infâmes, sons desagradáveis e memórias torturantes… O pior disso tudo, é ter certeza do meu paladar prejudicado por dois dias, no mínimo…

Tirando roupas da varanda…

A felicidade vem tão rápido como a tristeza. Basta alguns comprimidos de levedura de cerveja, num copo com água pela metade. Daí você acorda, envolto em três lençóis bem fininhos, leves e perfumados. Daí você liga a Tv no seu telejornal predileto. Levanta, coloca água pra ferver. Muito mais água do que o necessário pra fazer uma caneca de café, com fogo baixo, e vai pra um banho quente bem demorado… Daqueles que deixam o banheiro todo esfumaçado. Sai carregando e dispersando vapor de água, com cheirinho característico de sabonente, por toda a casa. Chega na cozinha no exato momento de fervura da água. Pega o pó de café e o coador, de pano, feito por sua tia. Lembra de sua tia querida. Lembra que ela vai fazer uma segunda operação para se livrar de um câncer hoje. Lembra de acender uma vela e incensos. Tais lembranças não abalam sua felicidade, porque sabe que tudo vai correr bem com ela. Acredita piamente que o câncer teve origem pela quantidade de amor que tem dentro de sua tia, que crescia cada vez mais, e que o médico teve que tirar um pouco. Acredita que amor da câncer… Porque consome as pessoas por dentro. Mas quem liga? Afinal, câncer de amor não mata.

Enquanto se lembra de sua tia, deixa a água e o pó de café brincarem de descer e subir à vontade do fogo, que é controlado girando o botão do fogão. Pega o coador e a caneca. Coa diretamente na caneca. Pega alguns folhados de canela e açúcar comprados na noite anterior. Pega um pão de mandioquinha, passa manteiga e capricha no quejo provolone. Esquece-se, durante o processo de cortar o queijo, dada a sua maciez, e percebe que cortou mais que o suficiente. Faz tudo isso num silêncio sepulcral. Não está cantarolando, o que seria normal…

Arruma tudo num grande prato e vai pro quarto, terminar de ver o jornal comendo, em cima da cama, em cima dos lençóis limpos e cheirosos, em cima de seus sonhos… Após o café, lava os pratos, e só então percebe as roupas penduradas na varanda. Estão lá desde a sexta-feira, quando foram lavadas… Hoje é quarta-feira. Começa a tirar as roupas do varal na varanda. Como se tirasse tudo que ainda pesava em si. Tudo o que viveu no final de semana… Secou qual a água das roupas… evaporou.

« Previous entries