Definitivamente ele era o homem múltiplo. Eram muitas facetas para ser apenas um indivíduo. Queria, numa só vida, morar num sítio à beira-mar. Acordar com o som das gaivotas, ter sua dieta à base de peixe e mariscos, tempo para se dedicar ao artesanato em côco. Morar em região montanhosa, quem sabe no Sul da França. Ter uma vida regada à simplicidade típica do interior. Morar numa metrópole, com todas as facilidades que isso traz: cultura, informação, sofisticação. Morar perto da família. Morar longe da família. Viajar sempre. Ter uma vida quieta, enraizada. Ter tempo pra conversar com os vizinhos, visitar os amigos, quase diariamente. Noites de queijos e vinhos. Noites de Óperas, bailes e saraus. Dias de sol, molhados de mar, melados de acarajé. Dias nublados, enrolados em edredons, DVD e chocolate quente. A poeira do deserto. A poeria de um sebo. Bibliotecas inundadas de histórias e ele, náufrago entre páginas e páginas. Jogos intermináveis de xadrez, junto a discussões igualmente intermináveis sobre cinema, filosofia, religião e política. Novas culturas. A vida acadêmica. Pesquisas. Churrascos em domingos de sol, com cerveja. Café, café, café… Paris, Florença, Roma, Londres, Cairo, Istambul, Amsterdã, Ouro Preto, Santa Maria… tantos lugares, tantas possibilidades… E apenas uma vida para isso tudo. É injusto! E saber que ainda temos que trabalhar para ter dinheiro…
Archive for June, 2006
Lápis Vermelhos
Ontem comprei cinco lápis vermelhos. A ponta de grafite era própria para carpinteiro. Achei que elas seriam boas para fazer esboços. Mas não eram. O grafite era por demais áspero. Então lá estava eu… Com cinco lápis que não me serviam de nada, precisando de uma caneta. Porque eu sei que com caneta os escritos não são facilmente apagados. E quando apagados, deixam marcas no papel.
Encontro
Sentado, ainda com o corpo molhado do banho, enrolado ainda em sua toalha, levanta e finalmente atende o telefone, que tocava em sua desesperada 14ª vez.
O telefone lhe escapa das mãos. Um pequeno baque se faz ouvir no apartamento do andar inferior, como o seu vizinho, um velho que gosta de embrulhar pedaços de carne em velhos pedaços de jornal.
Sabia agora que teria de sair em 15 minutos. Mal poderia dar o nó em sua gravata. Na verdade, o faria enquanto descesse de elevador. O um minuto e meio que perdia diariamente de sua vida.
Apertando o botão até atingir o playground, quando, ao sair pela portaria do prédio, percebe que chove.
Ao atravessar a rua, é atropelado, indo parar numa emergência qualquer. Jamais pôde chegar ao seu compromisso. Pelo menos, o nó da gravata estava bem dado.