Esse texto foi escrito para uma pessoa muito, mas muito importante. Espero que ela goste…
É para ser lido, preferencialmente, ouvindo o Adágio de Albinoni.
Acabo de chegar em casa. De minha varanda, as cortinas dançam em busca do infinito. Em movimentos que lembram as águas se precipitando em cascatas, as cortinas saem da varanda, mas não caem… Como se soubessem até onde podem ir, antes de se precipitarem num mundo novo do qual não poderão voltar.
O vento toca músicas que apenas as cortinas ouvem, fazendo-as dançar uma dança própria, como que acariciando toda a sua pele… dedos se projetam, alisando ao mesmo tempo a superfície e o âmago das dançarinas.
Rodopiam ao redor de um centro imaginável. E voltam em piruetas impossíveis a pernas. Na há articulações… Planam majestosas em si mesmas. Dançam umas para as outras, que não esperam platéia. Sou um ponto no escuro. Não acendi a luz. Não queria encabulá-las.
Dado determinado momento, sento-me, e, ao fazê-lo, percebo, numa outra perspectiva, que, em verdade, os movimentos são menos dançantes… Uma das cortinas, agora com clareza, é uma bela dançarina, em seus trajes de anis. A outra cortina se revela um jovem, um jovem que corteja a bela dançarina. E a dançarina envolve-o e deixa-o. E volta a envolvê-lo. E ele, perdido em turbilhões de pensamentos, ajoelha-se e fica a observar a bela dançarina, que, agora, parece ser o cortejador.
Ela sabe de si. Ela sabe de mim. Ela me olha. E Fixa o seu olhar em mim ao executar uma pirueta de sete voltas. Na quinta volta, eu abaixo o olhar, que pesa sob o dela. E volto a olhar, de soslaio. Ela beija o jovem, que projeta seu corpo sob o dela. Ela uma pluma, ele, escamas.
Me levanto. São cortinas emboladas pelo vento, qual uma trança. Receio voltar a sentar-me. Mas um desejo de vê-la novamente, de vê-lo mais uma vez… paulatinamente vou-me encurvando sobre meu corpo, percebendo mãos subindo pela nuca escondida em dourados cabelos ondulados. Nesgas vão se desvencilhando, criando formas e volumes perfeitos… Não mais estão vestidos, a não ser pela luz que emana deles e que revela um corpo encolhido no canto da sala.
Vergonha. Levanto-me num sobressalto, mas lá estão eles a me olhar. As pernas são gravetos e me abandonam. Desabo próximo às cortinas. E acordo com suas carícias em minha pele. E agora ouço a música que o vento tocava… É linda… E me sinto apto a me atirar nas cascatas que agora vejo. Os jovens se dirigem para lá, mas não caem. Eles querem que eu vá. Passo a passo eu vou até a beira do precipício. E fico lá, dançando com os jovens… As águas passam por entre meus dedos. A correnteza não me leva… Insinua-se… Folhas caídas são levadas. Flores caídas não têm outro lugar a ir. Mas não me sinto pressionado. Eu quero ir… A demora é a demora do vento. Da música, que me impede de ir. Segura-me em seus longos dedos… E não tenho vontade de ir enquanto estou seguro, tal qual as cortinas. Mas o infinito me chama… E sua voz dá substância à música… Sua voz se torna a música. Sua voz se torna dedos, que delicadamente me desvencilham das mãos do vento. E o vento, ofendido, sopra… E sopra… A sua música agora não mais pode ser cantada. É forte. É demasiadamente forte. E me empurra em direção ao abismo. A ofensa foi muito grande para o perdão. A voz… Não mais a ouço. Mas sei que suas mãos estarão no fim do abismo, a me proteger da dor da queda. Encaro o vento. Só eu e ele. E não mais gosto do som de sua música, que extinguiu a voz. Sinto falta da voz. E digo a ele, que não mais ficarei como cortinas, embaladas pela sua música, mas sem coragem de irem ao infinito. Ele me diz que a voz provém de sereias, que me aguardam no fundo do abismo. Que ele tinha me ofertado tudo e que eu desprezara. E que agora não havia mais lugar para mim em sua música. Não pode ele saber da voz de sereias, porque nunca foi até o abismo. E ele me diz que quem vai, não volta. E eu digo que vou e não quero voltar, porque a voz, uma vez ouvida, será sempre lembrada. E todas as vezes que ouvir a sua música, esperarei pela voz, mas ela não virá. Porque sei que para muitos ela vem diversas vezes, mas para mim, não tenho certeza…
Encho-me da música do vento, que agora se torna densa. O arrependimento na música dificulta a entrada de ar nos meus pulmões, fecha a minha garanta. Chove. Olho para trás uma última vez, a tempo de ver as cortinas acenarem para mim, e deixo-me levar pela água, como uma folha caída. E me transformo numa folha caída, antes de sumir na fumaça da cachoeira.