Archive for April, 2006

Fim do mundo

Tava ainda agora ouvindo Paulinho Moska, em Fim do Mundo. Acho que todo mundo conhece, razão pela qual não colocarei a letra, nem um link. E para a alma que não conhece, uma dica: basta jogar no google. E afinal, o que você faria?

Dormir? Seria um tanto irônico dormir antes do “sono eterno”…

Comer? Pelo menos se morreria de barriga cheia… Ou, o que não mata engorda???

Transar? Duraria um dia todo? Lembrei do George, do Casamento de Meu Melhor Amigo, em seu: Takes a few hours…

Adoro entrar de roupa no mar. Não precisa ser o fim do mundo pra isso.

Loucuras? Quais? Mais do que as normais?

Pedir demissão? Ah… Eu nem iria me dar ao trabalho… Literalmente…

Certo, que tal então alugar um jatinho supersônico e ver de cima o mundo acabando em vários lugares e numa perspectiva privilegiada? Nããão… Isso seria para sádicos…

Humm… ver o mundo se acabar do Solar do Unhão, do Elevador Lacerda, do Bar da Ponta… De onde seria o melhor lugar?

Seria por água? Um Tsunami mundial? Haveria surfistas?

Seria por fogo? È fogo, é fogo, que incendeia… Esqueçam… Piada interna, de péssimo gosto, super baixo astral…

Seria um plim plim… Teria comercial? Um boom no Orkut… E as pessoas não mais saberiam quem elas são… não se reconheceriam, ou perderiam o “contato” umas com as outras por falta de scraps, testemonials e coisas do gênero…

Para os dramáticos, um coração partido. Para os depressivos, uma caixa de remédios vazia. Para consumistas, shopping fechado. Glutões sem restaurantes, delivery’s ou despensas… Para ninfomaníacas, quarentena. O que, afinal, seria o fim do mundo para você? Desastres…? Quais? Brigas? De que tipo? Guerras? Onde? O que seria um fim de mundo? Um local afastado? Uma tirada sem graça de um paspalho? Uma comida sem sal? Vestir preto num casamento? Ser a madrinha enlutada desse casamento? Final de semana de chuva? Doença nas férias? Fim de tais férias? Que tal um post sem um final?

Esperas e moedas

Trazia em si a certeza que ainda voltaria a vê-lo. Mas não era uma certeza como a que estamos acostumados a ter. Acaso pudéssemos avaliar essa sua certeza, não passaria a nós como mera esperança.

Porém, no seu íntimo essa esperança era algo forte, que lhe consumia o pensamento, o tempo, a vida… Passava horas a fio, sem sequer percebê-las, a pensar nele. E a sua lembrança, voltava qual maré, sempre que fosse possível a alguém dizer que estava a afastar-se.

Ondas traziam-no, com toda a força inata a mera menção de seu nome, de um lugar, um personagem, e a sua volta se transmutava em uma realidade própria. Não se tratava de uma realidade paralela, pois não coexistia com o que denominamos realidade. Era um lugar que sobrepujava tudo o que existe aos olhos de todos. Sua casa era destruída. Paredes implodidas em si, internamente, enquanto outras se levantavam em seu lugar. Paredes antigas, que ora ampliavam o local onde estava a um imenso salão, ora reduziam a um pequeno closet. Havia ainda situações em que não eram as paredes substituídas… Elas simplesmente desapareciam dando lugar a campos abertos de lavanda. Ou a florestas fechadas, praias, topo de montanhas, alto mar… E vivia-se ali por muito tempo, ou apenas alguns segundos. É certo que as construções e desconstruções não eram percebidas. Elas pareciam estar ali sempre. Não havia um momento para serem criadas. Não havia um momento para sua destruição. Tais lugares sempre lhe traziam a presença dele. Ele estava por todas as partes ali. Ele era o solo abaixo, as árvores, a lareira, o calor, a maciez do veludo. Era o chocolate servido em canecas de louça. Era o camarão que lhe fechava a glote. Tudo parecia emanar e voltar para a presença dele.

Muitos dos seus partiam esse mundo delicadamente construído. Seja por um simples telefonema, um grito, uma soma de pequenos atos. Apesar de todos os apelos nesse sentido, acreditava que não deixava de viver… Em verdade, afora esses arroubos de tempo, consumidos em sua expectativa, sua vida era banal. Não acreditava que pudesse haver plenitude em sua existência, senão na presença de seu amado. Não acreditava que pudesse tal espera representar algo de mal. O mal existia tão logo abria seus olhos. Os olhos para essa realidade na qual acostumamos a viver.

A espera era algo além do estado físico. Não havia viagens. Nenhuma nuvem era capaz de bloquear-lhe a visão. O seu odor…, e sua voz… uma voz cheirosa, uma voz de jasmim… azeitada antes de ser refogada… uma voz de textura variada, vezes suaves, vezes maravilhosamente seca. O paladar ainda não havia sido testado, mas o apetite em sonhos se revestia com tentações tais, que perto, maçãs seriam meros subterfúgios.

A espera era um limbo. E Caronte ainda lhe esperava… Embora com toda a sua vontade, a necessidade das moedas é premente. Com todo o seu amor, suplicava: – Arranje-me pois meras moedas e tire-me desse limbo. Que a espera me tira essa vida sem graça. E você me devolve uma vida completa.

Obviedades de novo

Ele não sabia mais o que fazer. Não tinha meios sofisticados de sedução. Não sabia lidar com seus sentimentos. Só tinha certeza do seu amor. Tinha medo de assustar sua cara metade. Não acreditava em cara metade. Não acreditava em alma gêmea. Tinha medo de envelhecer amargo. Tinha medo de não ser capaz de amar. O assentimento de sua condição de ser amante lhe trouxe sensações jamais sentidas. Um medo. Mas um medo tão grande… de não conseguir ser feliz longe dessa pessoa… de não mais se ver longe dessa pessoa… de continuar a chorar, sozinho, em seu quarto, à noite… de querer ligar a todo momento e fazer um esforço sobrehumano para não ligar… de querer essa pessoa de uma forma tão completa, que só de pensar, sente um arrepio sobre o outro, sobre o outro…

Não mais consegue se conceber como ser uno, porque parte de si não mais se econtra consigo. E nesse aspecto, pode sentir-se parte de outra pessoa, que carrega uma parte tão preciosa sua.

Agora, depois de enviar uma mensagem óbvia, como só ele consegue ser, espera que não tenha errado. Se bem que errar nunca foi problema para ele. Na verdade, sempre concebeu um erro como um quase acerto… Vítima de seu eterno otimismo, não pode deixar de esperar que tudo saia bem, não havendo necessidade de ser no final… Pode ser no meio mesmo…

Lágrimas – Um post escrito há algum tempo

Eu estou tão só… que minhas lágrimas quando rolam pelo meu rosto fazem um carinho que eu há muito preciso.

Sou assim, meio criança, que precisa de um colo, meio adulto, que ainda não consegue lidar com algumas coisas da vida, como todo adulto. E às vezes a solidão é forte demais para mim. Fico sentado… sem olhar fixadamente pra lugar algum, e minhas lágrimas são como pequenas mãos a me acariciar…a delicadeza com a qual elas rolam, lembram momentos de carinho e durmo com esse gosto travado na garganta. Não consigo entender muitas coisas na minha vida. Antes já não conseguia, hoje, então… Sempre achei que nosso primeiro amor tinha obrigação de não ser platônico. E no meu estômago pequenas brasas que nunca são digeridas… as lágrimas não chegam até elas pra apagar. E fico só… com minhas lágrimas. E choro por todos os cômodos da casas, pensando encontrar em algum deles algum consolo. E, por fim, fico na frente do espelho, que reflete a imagem de um cara triste, de uma tristeza imensa, que se veste de alegria, de uma alegria exagerada por vezes, exatamente as vezes em que ele está mais triste. E quanto mais vistosas as capas e tecidos, mais gris sua alma. Que só se revela à frente do espelho, desfocadas pelas lágrimas…

Yellow

Engraçado que eu transcrevi essa música todinha, para entregar a você, e não o fiz. Não me pergunte porque.     

 

 Yellow

Look at the stars,

Look how they shine for you,

And everything you do,

Yeah, they were all yellow.

I came along,

I wrote a song for you,

And all the things you do,

And it was called "Yellow."

So then I took my turn,

Oh what a thing to have done,

And it was all "Yellow.

"Your skin

Oh yeah, your skin and bones,

Turn into something beautiful,

You know, you know I love you so,

You know I love you so.

I swam across,

I jumped across for you,

Oh what a thing to do.

Cos you were all "Yellow,"

I drew a line,

I drew a line for you,

Oh what a thing to do,

And it was all "Yellow."

Your skin,

Oh yeah your skin and bones,

Turn into something beautiful,

And you know for you,

I´d bleed myself dry for you,

I´d bleed myself dry.

It´s true,

look how they shine for you,

Look how they shine for you,

Look how they shine for,

Look how they shine for you,

Look how they shine for you,

Look how they shine.

Look at the stars,

Look how they shine for you,

And all the things that you do

I´ve said too much

Essa semana tem sido de uma surrealidade espantosa. Os acontecimentos estão simplesmente se imiscuindo em si mesmos, construindo uma teia ao redor de mim, e me prendendo lá dentro. Como se numa forma não ortodoxa do tempo, que nesse caso deixa de ser linear e passa a compor elipses que se tocam sempre em dois pontos, eu pudesse ver e me ver. Ver numa perspectiva diferente da câmera subjetiva e, com isso, me ver como ator, atuando num palco ainda não completamente construido. Mas sei que não se trata de um ensaio, porque o roteiro ainda não está acabado, e em cada improviso ele se transforma. Só não sei se ando improvisando demais. Em uma frase, minha indecisão… “I´ve said too much…” ?

Um momento

Estou triste. Minha cabeça ainda não conseguiu processar tudo o que se passou. Como um computador que não roda determinado software, continuo tentando repetidamente concatenar minhas idéias. “Cidade dos Anjos”. Deparo-me não com a indignação do anjo caído*, mas com a tristeza do inevitavel. E isso porque não foi uma decisão deixar o lugar onde eu estava. Laura Brown** já dizia que onde não há escolha, não pode haver arrependimento. A tristeza me aperta o estômago e dele retira lágrimas que marejam meus olhos apertados. Olhos vermelhos. Nariz vermelho, pois este não é de prótese… E passei uma noite de lágrimas, porque a beleza do momento houve. A perfeição houve. E isso é o máximo que se pode exigir da perfeição. Um momento. E nunca fui mais orgulhoso de mim. Porque apesar de um coração que gritava, de uma cabeça que rodava, o momento foi tudo o que poderia desejar. Minto. No fundo, não precisava ser perfeito. Bastava ser recíproco. Não o amor, que exigir retorno desnatura o sentimento. Mas a intenção. A intenção de coexistência. Ainda que fosse uma reciprocidade de tentativas. Não há lugar para raiva ou mágoa. Como dito, o momento foi perfeito. Mas a perfeição de um momento pode, sim, ser triste. E o foi. E nada que seja argumentado pode tirar esse estado de meu peito. Porque sei, no fundo, que a presença dessa tristeza é a presença da própria fonte desse meu amor. Estão lado a lado. E será dessa forma que viverei esse amor. Com a felicidade da sua existência. Com a tristeza do platonismo. E mais uma vez, cedo lugar à dialética. Na esperança de um pequeno up grade que permita ao meu computador rodar o único software hoje realmente importante para mim.  

* Anjo caído: Seth – Nicholas Cage em Cidade dos Anjos

** Laura Brown: personagem de Juliane Moore em As horas

Para não dizer que não falei das flores…

Eu não disse que um telefonema resolveria?

Distúrbio Bipolar do Humor

E a tristeza bate forte, já de cara. Não sei bem. Acho que o amor necessariamente implica uma atitude maníaco-depressiva diante do cotidiano. Impressionante como em um dia você sequer pisa no chão. E acha graça em tudo. As cores são mais vívidas. O paladar, mais ativo. Você se encontra acima de coisas pequenas, como o bem e o mal.

Mas então, como uma pancada que te desnorteia, umas três palavras, uma mera notícia te deixa sem chão. Não foi uma mentira. Não foi uma traição. Apenas uma circunstância qualquer, que te deixa com pequenos cacos de vidro na língua. E o paladar fica estranho. E tentar distinguir sabores dói. Uma película opaca se forma logo após a sua retina, distorcendo o mundo. E você só consegue ver foscos vultos, passando ligeiramente, com sorrateiros sorrisos de satisfação.

Isso machuca. A espera, antes deliciosamente desfrutada, machuca. Embrulha o seu estômago num presente de grego para troiano. E o que parecia uma calmaria se revela de fato uma calmaria. Não a calmaria dos coqueirais. A calmaria dos navegantes. Aquela, pior do que qualquer tempestade. Aquela que mata. De fome, de sede, de desejo.

E o mundo se fecha para você. Ou o contrário?

E saber que um mero telefonema traria consigo o antídoto para tamanho fel.

Das cortinas

Esse texto foi escrito para uma pessoa muito, mas muito importante. Espero que ela goste…

É para ser lido, preferencialmente, ouvindo o Adágio de Albinoni.

Acabo de chegar em casa. De minha varanda, as cortinas dançam em busca do infinito. Em movimentos que lembram as águas se precipitando em cascatas, as cortinas saem da varanda, mas não caem… Como se soubessem até onde podem ir, antes de se precipitarem num mundo novo do qual não poderão voltar.

O vento toca músicas que apenas as cortinas ouvem, fazendo-as dançar uma dança própria, como que acariciando toda a sua pele… dedos se projetam, alisando ao mesmo tempo a superfície e o âmago das dançarinas.

Rodopiam ao redor de um centro imaginável. E voltam em piruetas impossíveis a pernas. Na há articulações… Planam majestosas em si mesmas. Dançam umas para as outras, que não esperam platéia. Sou um ponto no escuro. Não acendi a luz. Não queria encabulá-las.

Dado determinado momento, sento-me, e, ao fazê-lo, percebo, numa outra perspectiva, que, em verdade, os movimentos são menos dançantes… Uma das cortinas, agora com clareza, é uma bela dançarina, em seus trajes de anis. A outra cortina se revela um jovem, um jovem que corteja a bela dançarina. E a dançarina envolve-o e deixa-o. E volta a envolvê-lo. E ele, perdido em turbilhões de pensamentos, ajoelha-se e fica a observar a bela dançarina, que, agora, parece ser o cortejador.

Ela sabe de si. Ela sabe de mim. Ela me olha. E Fixa o seu olhar em mim ao executar uma pirueta de sete voltas. Na quinta volta, eu abaixo o olhar, que pesa sob o dela. E volto a olhar, de soslaio. Ela beija o jovem, que projeta seu corpo sob o dela. Ela uma pluma, ele, escamas.

Me levanto. São cortinas emboladas pelo vento, qual uma trança. Receio voltar a sentar-me. Mas um desejo de vê-la novamente, de vê-lo mais uma vez… paulatinamente vou-me encurvando sobre meu corpo, percebendo mãos subindo pela nuca escondida em dourados cabelos ondulados. Nesgas vão se desvencilhando, criando formas e volumes perfeitos… Não mais estão vestidos, a não ser pela luz que emana deles e que revela um corpo encolhido no canto da sala.

Vergonha. Levanto-me num sobressalto, mas lá estão eles a me olhar. As pernas são gravetos e me abandonam. Desabo próximo às cortinas. E acordo com suas carícias em minha pele. E agora ouço a música que o vento tocava… É linda… E me sinto apto a me atirar nas cascatas que agora vejo. Os jovens se dirigem para lá, mas não caem. Eles querem que eu vá. Passo a passo eu vou até a beira do precipício. E fico lá, dançando com os jovens… As águas passam por entre meus dedos. A correnteza não me leva… Insinua-se… Folhas caídas são levadas. Flores caídas não têm outro lugar a ir. Mas não me sinto pressionado. Eu quero ir… A demora é a demora do vento. Da música, que me impede de ir. Segura-me em seus longos dedos… E não tenho vontade de ir enquanto estou seguro, tal qual as cortinas. Mas o infinito me chama… E sua voz dá substância à música… Sua voz se torna a música. Sua voz se torna dedos, que delicadamente me desvencilham das mãos do vento. E o vento, ofendido, sopra… E sopra… A sua música agora não mais pode ser cantada. É forte. É demasiadamente forte. E me empurra em direção ao abismo. A ofensa foi muito grande para o perdão. A voz… Não mais a ouço. Mas sei que suas mãos estarão no fim do abismo, a me proteger da dor da queda. Encaro o vento. Só eu e ele. E não mais gosto do som de sua música, que extinguiu a voz. Sinto falta da voz. E digo a ele, que não mais ficarei como cortinas, embaladas pela sua música, mas sem coragem de irem ao infinito. Ele me diz que a voz provém de sereias, que me aguardam no fundo do abismo. Que ele tinha me ofertado tudo e que eu desprezara. E que agora não havia mais lugar para mim em sua música. Não pode ele saber da voz de sereias, porque nunca foi até o abismo. E ele me diz que quem vai, não volta. E eu digo que vou e não quero voltar, porque a voz, uma vez ouvida, será sempre lembrada. E todas as vezes que ouvir a sua música, esperarei pela voz, mas ela não virá. Porque sei que para muitos ela vem diversas vezes, mas para mim, não tenho certeza…

Encho-me da música do vento, que agora se torna densa. O arrependimento na música dificulta a entrada de ar nos meus pulmões, fecha a minha garanta. Chove. Olho para trás uma última vez, a tempo de ver as cortinas acenarem para mim, e deixo-me levar pela água, como uma folha caída. E me transformo numa folha caída, antes de sumir na fumaça da cachoeira.

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